Há poucos dias, quando eu estava experimentando uma blusa, em uma
loja, ouvi uma outra cliente, falar para a sua amiga,
no provador ao lado do meu :
-Ufa! Finalmente, consegui ficar com aquele gato, amigo do meu
irmão...
-Nossa! Verdade? Está podendo, hein, amiga?
-É, ele não teve como escapar! Segurei-o com unhas e dentes...
Pena que até hoje, não me ligou nem para me pedir, o livro que
esqueceu em meu carro.
-Aproveita e liga pra lembrar...
-Já fiz isso e muito mais, mesmo assim, não funcionou. Aliás, eu
faria tudo, pra ficar com ele, só mais uma vez...
Hoje, coisas desse tipo, são comuns.
Não tenho nada contra a paquera e nem com o ficar,
cada um sabe de si, mas tempo é algo para ser desfrutado
com sensatez e boas trocas, não deve ser desperdiçado
inutilmente.
Fazer malabarismos para ficar com alguém, sem uma razão mais forte...
Alguém que não me percebe, que não me observa ... Isso, só me tomaria
tempo, além de causar-me um rombo enorme na minha autoestima.
Alguns itens costumam ser valiosos para mim:
Tempo, Autoestima, Sintonia e Significado.
Tempo, eu não tenho a perder. Preciso, cada vez mais, otimizá-lo.
Quanto a minha autoestima é a ferramenta que me faz acordar para
as batalhas diárias. Sem ela, precisarei de um reboque, um S.O.S para
mover-me ou trazer-me de volta para o meu QG.
Apurei os meus sensores, quanto à emissão de alertas. Pagar multas
incomensuráveis, por pura distração, não é nada sensato.
Se os olhares não sintonizaram as mesmas emoções, onde poderia
reuní-las ?
Correr atrás de algo sem consistência, sem qualquer significado, não
lembro de ter tido esse tipo de registro em minhas Corujices.
Em muitas situações, tem sido possível concluir antecipadamente,
se valerá ou não à pena, investir tão alto, em algo que não terá
nenhum significado depois.
Na maioria das vezes, seguro os meus impulsos, porque sei que as minhas
emoções não conseguem encontrar eco, onde não existe encanto e algumas
evidências de história.
Sentimento foi feito para colorir a vida da gente, mas precisa ser alimentado.
Sei que a ansiedade promove tentações que a insegurança não recusa, mas a
paciência, também, é sábia quando exercitada frequentemente.
Aprendi a mudar o foco das vitrines, que não oferecem bons
produtos.
Para boas escolhas tenho que criar critérios que priorizem o essencial
e me ofereçam o retorno esperado.
Todos nós podemos decidir com quem desejamos ficar por afinidade, por reciprocidade, por
admiração, por atração, mas nunca por imposição, instinto, falta de opção ou por solidão.
O instinto age com precisão, totalmente desprovido de detalhes e sutilezas.
As nossas referências mais estreitas se relacionam com toda simbologia
contida nos códigos que pinçamos no cotidiano, por isso, não conseguimos
agir sem afeto, sem desejo, sem emoção.
O instinto não sente saudade nem espera telefonemas no dia seguinte. Não atua com
sequências nem sintomas emocionais.
Como esquecer dos detalhes que enfeitam os nossos dias ?
Eles sempre serão extremamente necessários e preciosos.
Atuam como personagens, compõem e preenchem os nossos momentos, principalmente, quando estamos solitários e não sentimos o tempo passar.
A vida sempre nos exigirá , aquilo que ela nos tem tirado frequentemente: a sensibilidade para nos encantarmos com o amor, com a arte de admirar pessoas que conseguem separar a
euforia, dos sentimentos mais nobres que qualificam qualquer forma de existência , além de nos manter jovens e emocionalmente doces.
Sem esses ingredientes, envelheceremos rápido demais, nos debilitaremos sem quê nem pra
quê, porque o nosso "ser" nos pedirá, sempre, muito mais que emoções fugazes.
O " ser" sempre necessitará dos significados contidos naquilo que vivemos.
O cérebro não foi elaborado para suportar a paixão em demasia, sem identidade e
referências administráveis.
O amor parceiro, amigo, divertido, sereno recondiciona as nossas estruturas emocionais.
Portanto, o mais importante, nessa discussão ,
não é com quem ficamos nem
quantas vezes ficamos ou tudo que fazemos para ficar com alguém
.
O mais importante em tudo isso é,
como estamos ?
Estamos bem? Estamos felizes? Gostamos do que estamos fazendo? Qual a importância que damos para esse tipo de coisa?
Estamos confortáveis nessa situação? Qual é a importância do outro em nossas vidas ?
Será que já nos perguntamos, quem faz tudo para ficar com a gente?
Como poderemos dosar o nosso nível de expectativas em relação ao outro?
Será que a nossa felicidade está concentrada no universo de outras pessoas ?
Quais são as coisas que nos dão imenso prazer ?
Como nos situamos diante de coisas transitórias?
Onde depositamos os nossos investimentos pessoais ?
Temos controle sobre eles ?
Acho que para qualquer situação, precisaremos controlar a nossa ansiedade.
Não se trata de contenção e sim de condição para fazer, para agir sem culpas e eternas cobranças.
Estamos num mundo adulto, até para as crianças nem tudo tem sabor de chocolate e chantilly.
Repensemos sobre os pontos confusos que nos afligem,
se nos causar tédio ou aflição, que tal um cineminha?
As coisas não se processam de uma hora para a outra.
Os grandes projetos da vida exigiram de seus empreendedores muitas divagações, ensaios e até monólogos, no meio da noite, no clarão das ideias inesperadas.
Quando não tivermos certezas, no minímo, mais que razoáveis, sobre as consequências e efeitos dos nossos atos, melhor será colocá-los em stand bye .
Tudo acontecerá no seu devido tempo.
Nos grandes lances da vida seremos o foco de muitas histórias,
algumas com timbres de intensos romances, outras com desfechos, possivelmente transitórios, mas com as suas especificidades, consequências e personagens, ainda, em cena.
E você, faria tudo para ficar com ele (a) ?
Lis Lisboa